A profissão do seu filho, provavelmente, ainda não existe

Numa recente conversa em família especularam várias profissões para Pedro, meu filho de quatro anos. Com base nas características dele... citaram veterinário, agrônomo, médico. Tamanho foi o espanto quando eu disse: pessoal, provavelmente o trabalho que Pedro vai escolher ainda não existe. Imagino que ele fará algo muito diferente porque as formas de trabalho serão completamente novas.

 

A minha especulação se baseia, principalmente, em três fatores:

 

  • A entrada de novas tecnologias e as mudanças nos padrões sociais, que já estão alterando a forma de se trabalhar em diversas áreas;

 

  • A escassez cada vez maior do emprego tradicional, aquele com carteira assinada, em função do novo cenário mundial;

 

  • O tendência de trabalho mais independente, criativo e por projetos.

 

 

Trabalho na geração dos nossos filhos

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O cenário que se desenha será ainda mais desafiador quando os nossos filhos chegarem ao mercado de trabalho. Em entrevista recente David Carlos Domingos, engenheiro e doutor do Instituto alemão Fraunhoter, citou uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial que comprova isso. O levantamento mostra que 65% das profissões que serão escolhidas por crianças que entram atualmente na escola ainda não existem.

  

“Os estudos são unânimes em dizer que precisamos deixar de ser especialistas. É a hora de investir mais em capacidades cognitivas, saber lidar com a resolução rápida de problemas, saber interagir bem com pessoas. Tudo isso, vai fazer ainda mais diferença no futuro”, diz David.

  

Como preparar crianças para o trabalho?

 

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Para pesquisadores, a resposta está em investir em competências que já são imprescindíveis hoje, mas que no futuro, serão indispensáveis. Entre elas, podemos citar adaptabilidade, iniciativa, pensamento crítico, resiliência e resolução de problemas. A mais importante delas, talvez, seja a criatividade. É ela que ajudará as nossas crianças a enfrentar ou recriar situações.

 

Aos adultos, cabe o importante papel de estimular essa capacidade nos pequenos em vez de “trucidar” cotidianamente com ela. Precisamos mudar a forma de olhar para a criança, dar mais crédito à maneira como ela consegue resolver questões diversificadas, permitir que ela erre para aprender, sem puni-la o tempo todo por isso.

 

Paul Collard, diretor executivo de uma organização responsável por programas educacionais na Inglaterra, também segue nessa direção.

 

“A criação deve ser motivada pela realidade, por problemas reais a serem solucionados, tanto individuais como coletivos. Para que isso seja possível, é preciso desenvolver curiosidade, motivação, força de vontade, colaboração, responsabilidade. Também é necessário aprender que errar é parte da aprendizagem”, disse Paul numa entrevista citada recentemente pelo jornal Estado de São Paulo.

 

Diploma não terá o mesmo “peso”

 

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De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), nos próximos 30 anos mais pessoas irão se formar na faculdade do que no princípio da história. Contraditoriamente, diplomas não valerão o mesmo que antes. Atualmente, já percebemos esse movimento. Tempos atrás, quem tinha diploma tinha emprego. Agora, jovens com diploma estão voltando pra casa. Isso demonstra que os certificados de especialização já ocupam outro patamar.

 

Empurrada por cenários assim, a nova geração de profissionais terá que buscar outras formas de aprendizagem para construir conhecimento. Nesse contexto a educação precisará estar mais distribuída, colaborativa, compartilhada, aberta a novas formas de contribuir.

 

Para o educador Inglês Sirken Robinson, a escola poderá colaborar bastante para esse movimento se souber aproveitar o potencial criativo das crianças.

 

“Em primeiro lugar, porque elas não têm medo de errar. E isso é fundamental. Se não estivermos preparados para errar, jamais teremos uma ideia original. Hoje, quando chega à fase adulta, a maioria das crianças já perdeu essa capacidade. Levamos isso para o mercado de trabalho ao administrarmos empresas assim, estigmatizando os erros. Dentro dos sistemas educacionais, o erro é a pior coisa que pode acontecer. Consequentemente, formamos pessoas menos criativas”, constata ele.

 

O papel da escola na formação profissional

 

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Sirken conclui, ainda, que todo sistema educacional tem a mesma hierarquia de disciplinas. Não importa o lugar. Considera que no topo estão as exatas e as línguas, depois as humanas e por último, as artes.

 

“E praticamente em qualquer sistema, existe uma hierarquia dentre as artes: arte e música são mais importantes nas escolas do que teatro e dança. Nenhum sistema educacional do mundo ensina dança diariamente às crianças como ensina matemática. Por que não? Isso ajudaria muito a potencializar diversas outras habilidades tão importantes quando às que valorizamos hoje. À medida que as crianças crescem, nós as educamos da cintura para cima”, diz Sirken.

 

Na opinião dele, isso acontece porque nosso sistema educacional se baseia na ideia de habilidade acadêmica em função da época em que foi concebido. Antes do século XIX não havia sistema público de educação. Eles foram criados para atender à demanda da industrialização. Então, a hierarquia se apoia em dois pilares:

 

  • No conceito de aptidão acadêmica, que domina a nossa visão de inteligência;

 

  • No de que as disciplinas mais úteis para o trabalho estão no topo.

 

O educador conclui avaliando que o mundo precisa repensar os princípios em que baseia a educação das crianças.

 

“Só poderemos fazer isso encarando a nossa capacidade criativa pela riqueza que ela representa. E nossas crianças, pela esperança que elas representam. Precisamos educá-las em sua totalidade, preparando-as para esse futuro. O trabalho da escola é ajudá-las a tirar proveito dele”, finaliza.

 

 

QUEIRA MAIS:

Ao contrário do que muitos pensam, a criatividade não é algo que se desenvolve espontaneamente de acordo com o perfil da pessoa. Ela é uma habilidade que deve ser incentivada desde os primeiros anos de vida. No vídeo abaixo, a psicóloga Jéssica Aires Oliveira explica como.   

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