Depressão pós-parto e seus sinais: “meu bebê parece um estranho pra mim”

A maternidade é algo transformador porque interfere nos nossos instintos mais profundos. Também mexe com a nossa essência e sacode a zona de conforto de qualquer casal. A Luciana, mãe da Liz, de três anos, e do Danilo, de sete meses, experimentou esse efeito metamorfose durante uma profunda depressão pós-parto. 

 

Os sintomas começaram logo após o nascimento da filha e representaram o começo de uma grande mudança da vida e atitude.

 

depressão pós-parto

 

DEPRESSÃO PÓS-PARTO E OS PRIMEIROS SINAIS

 

A Luciana sempre foi ativa e produtiva. Por isso, quando o comportamento dela mudou após o parto, tanto ela quanto a família perceberam que havia algo errado. Quatro fatores indicaram bem isso:

 

  • Sensação de estar em alerta o tempo todo: estava sempre fazendo coisas para o bebê e para a casa. Nem mesmo quando a pequena Liz dormia, ela conseguia descansar ou se distrair;

 

  • Choro sem motivo: às vezes, no meio de uma conversa agradável com o marido, vinha a inexplicável crise de choro;

 

  • Dificuldades para executar ações básicas: quando um novo dia começava, não era fácil levantar da cama. Além disso, a Luciana chorava muito. Ela conta que até hoje o marido brinca quando perguntam se a Liz era um bebê chorão: “Não, a Lu chorava muito mais do que a Liz” relembra ela de forma bem-humorada.

 

A BUSCA POR AJUDA

 

depressão pós-parto

 

Tudo isso, aliado ao histórico familiar de depressão pós-parto, fez com que a Luciana procurasse uma psiquiatra (indicada pelo pediatra). Isso aconteceu na 3a semana após o nascimento da Liz.  

 

Inicialmente, a médica cogitou a possibilidade de ser um blues puerperal: melancolia pós-parto que atinge cerca de 75% das mulheres no puerpério, mas não é depressão. Como esse diagnóstico passa naturalmente de 15 a 30 dias após o nascimento da criança, a recomendação foi esperar esse prazo para avaliar melhor a evolução do quadro.

 

Mas a situação se agravou rapidamente e obrigou a Luciana a voltar ao consultório menos de um mês depois. A partir daí ela iniciou a medicação e o acompanhamento terapêutico com uma psicóloga especializada em pós-parto. A psiquiatra também orientou que ela descansasse e dormisse sem interrupções. Por isso, o papai Danton – marido da Luciana –assumiu as mamadeiras da madrugada. Ele também se manteve firme na função até que a pequena Liz deixasse de acordar para mamar.

 

DEPRESSÃO PÓS-PARTO E TRATAMENTO

 


 

Definir a dose adequada da medicação é algo que leva um certo tempo. Como a Luciana não queria deixar de amamentar, começou a tomar uma quantidade baixa de antidepressivo. Como ela mesma conta, “ foi calibrando conforme o tempo e necessidade”. Esse processo levou de dois a três meses, mas já começou a apresentar resultado nas primeiras semanas. O que foi ótimo porque evitou interromper a amamentação – algo recomendado pelo médico quando a dose do remédio ingerida pela mãe é muito alta.

 

“Continuar amamentando foi muito importante porque era a forma de eu manter o vínculo com a minha filha. Foi através desse contato que nós fomos nos reconhecendo e construindo a nossa relação. Por isso considero fundamental, se possível, recorrer a um profissional especializado em pós-parto e que valorize a amamentação. Geralmente, eles são mais cautelosos na medicação em prol da manutenção do aleitamento materno”.

 

AJUDOU NO TRATAMENTO

 

depressão pós-parto

 

  • Assumir e acolher a depressão pós-parto: a Luciana não teve vergonha de pedir ajuda e falar a verdade. Assim, começou a verbalizar os sentimentos ruins na terapia sem julgamentos: “não estou gostando de ser mãe!”, “ela parece um estranho para mim”, “tenho vontade de fugir de casa”, etc. Tudo foi passando aos poucos;

 

  • Apoio familiar: ter o marido próximo o tempo todo, o apoio da família e dos amigos foi condição chave na recuperação da Luciana. Sobre isso, ela alerta:

 

“Fica uma dica para quem tem familiar ou amigo com depressão: as pessoas tendem a se afastar de quem está doente (seja por preconceito ou por não saber lidar com a questão). Mas o que a pessoa precisa é exatamente o contrário: contato, compreensão, apoio. Então, esteja presente como puder”.

 

  • Acreditar no tratamento: buscar esse pensamento é importante. Quando você está no meio do processo, parece que ele será eterno e pensa: “agora tenho filho e minha vida vai ser sempre essa”, pensava a Luciana. Felizmente ela constatou que não é assim. Com o tempo e os procedimentos corretos, tudo passa e se transforma.

 

A Luciana acrescenta, ainda, como foi importante para ela ter fé ao longo de todo esse processo. Católica, ela aliou o tratamento à religiosidade . Relata que foram incontáveis as vezes que rezou aos pés de Nossa Senhora pedindo... “Maria, me ensina a ser mãe”. Hoje a Luciana dedica à Maria esse testemunho e segue rezando aos pés dela dizendo: “Maria, obrigada por me tornar mãe”.

  

COMO PREVENIR A DEPRESSÃO PÓS-PARTO

 

Sob a ótica hormonal, nem sempre é fácil prevenir a depressão pós-parto porque cada mulher reage de uma forma às oscilações hormonais. Mas do ponto de vista psicológico, muita coisa pode ser feita. Entre elas, estão:

 

  • Se autoconhecer
  • Se informar sobre o histórico familiar da doença
  • Dividir angústias e medos com grupos de gestantes e mães
  • Se preparar psicologicamente para mudança de vida e rotina
  • Não colocar a maternidade num pedestal romântico
  • Falar sobre a maternidade real, como ela é na prática

 

“Felizmente as redes sociais estão ajudando a escancarar, sem medo, a maternidade real. Quando eu falava sobre as minhas angústias e percepções no pós-parto (que eram exacerbadas por conta da doença), muitas mães se reconheciam nelas em menor ou maior grau. Foi comum ouvir de amigas e até de desconhecidas que elas nunca haviam falado sobre isso pra ninguém. Porém, se sentiram como eu por muito tempo. Falar sobre a maternidade real é acolher as frustrações e alegrias que virão de forma particular para cada mãe”.

 

A VOLTA POR CIMA E O 2° FILHO

 

Quando a Liz estava com, aproximadamente, seis meses a Luciana já se sentia melhor e voltou a trabalhar. A alta da terapia veio quando a filha completou um ano de idade. A chance de reincidência de depressão pós-parto é alta: gira em torno de 50%. E é claro que a Luciana tinha medo de passar por tudo aquilo novamente. Mas isso não a impediu de tentar outra vez. Antes, porém, teve muita conversa em família.

 

“Felizmente fiquei no lado dos 50% não reincidentes. Tive  um 2o pós-parto tranquilo e, mesmo com dois pequenos para dar conta (a diferença deles é de três anos), logo me reconheci na nova situação. Comparando o puerpério da Liz com o do Danilo, tive certeza de que a depressão é realmente um distúrbio grave, uma doença que precisa ser olhada como tal (e não como “frescura”, “preguiça”, entre outros julgamentos sem conhecimento)".

 

Ela conta, ainda, que teve alguns dias de blues puerperal após o 2° parto, mas diz que foi completamente diferente da depressão.

 

 

SER MÃE FOI COMO RENASCER

 

 

Ninguém passa por uma experiência como essa em vão. Os desafios vêm para nos fazer crescer, nos ajudar a deixar de lado o que atrapalha e permitir que a gente desenvolva outras virtudes. Foi assim com a Luciana.

 

“Eu tinha uma visão romantizada da maternidade. Achava que ia ser lindo e comprava o discurso de que o amor materno ajuda a dar conta das partes ruins. Mas quando a minha filha nasceu, havia um abismo gigante entre esse discurso e a minha realidade. Tanto que, no meu caso, o amor materno não foi instantâneo. Foi construído e conquistado com o tempo” conta ela.

 

De tudo isso, ficaram as lições:

 

  • A parceria do marido Danton foi fundamental na superação dos momentos ruins;

 

  • Foi preciso viver essa experiência para desconstruir a ideia tradicional de maternidade/paternidade e dar vida a uma forma própria de “maternar” que, nas palavras da Luciana “é até mais bonita do que a idealizada porque é real e consciente”;

 

  • Foi o momento de dar "tchau" a uma Luciana hiperprodutiva, independente, do tipo que não gostava de pedir ajuda e nem de ter alguém dependente ao lado - para dar lugar a uma Luciana diferente e bacana também;

 

  • Foi um processo de perdas e ganhos nada fácil, que a Luciana resume da seguinte forma:

 

“Foi como deixar morrer quem eu era, para dar lugar a quem eu precisava ser dali em diante. Quando esse processo termina (se é que termina algum dia... rs), é maravilhoso porque a gente se descobre muito mais corajosa, paciente, colaborativa e imersa no mundo. Mas exige coração aberto, fé e muitas, muitas lágrimas”.

 

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