Pós-parto: nem sempre tão cor de rosa quanto imaginamos

Quando engravidamos, principalmente pela primeira vez, iniciamos uma fase de muitas expectativas e dúvidas. Entre as preocupações estão: o tipo de parto que vamos fazer, que pediatra escolher, como esse profissional irá nos acompanhar e que tipo de mãe seremos no pós-parto.

 

Ana e Francisco no pós-parto

 

Com a Ana Maria, mãe do Francisco – de dois anos – não foi diferente. Aos seis meses de gravidez, ela e o marido optaram pelo parto natural. A partir daí, colocaram em prática tudo que pudesse ajudar na hora do nascimento do filho. Eles desejavam que a chegada do Francisco ocorresse com o mínimo de intervenção possível.

 

O IMPREVISTO E PÓS-PARTO

 

Aos nove meses de gravidez, no entanto, Ana teve síndrome de hellp: complicação de difícil diagnóstico, que acontece durante a gravidez ou no pós parto, podendo causar a morte da mãe. Os sintomas podem ser confundidos com pré-eclampsia grave, ou seja, aumento da pressão arterial e inchaço.

 

“Tive esse problema no dia em que encerrei as atividades nas escolas em que dou aula. Às 21h, a minha pressão subiu muito e fui para o hospital inconsciente. Francisco nasceu às 22h30 de cesareana e, felizmente, sobrevivemos. Mas essa situação trouxe consequências psicológicas para o meu pós-parto”.

 

PÓS-PARTO DIFÍCIL

 

Essa mudança de planos fez com que a Ana precisasse se reestruturar. Uma das primeiras atitudes foi encarar o fato de que as intervenções sofridas foram necessárias para a saúde da família. A partir daí, surgiram desafios que valem a pena ser compartilhados porque fazem parte da rotina de muitas mães. Só que nem sempre são discutidos, encarados com naturalidade ou bem aceitos pelas pessoas ao redor.

 

MEDO DE SEGUIR A VIDA

 

Ana conta que ficou com medo de tudo que, na cabeça dela, pudesse interferir na própria saúde e na do Francisco. Por isso, nos primeiros 40 dias após o parto, ela quase não saiu de casa e tinha receio quando as pessoas pediam para pegar o bebê no colo. Pensava que precisava ficar focada apenas na amamentação e no cuidado com o filho, para poupá-lo de novas intervenções médicas. Foi assim nos três primeiros meses, fazendo tudo com cautela e preocupação. “Só hoje posso perceber que esses sentimentos eram exagerados”, reflete Ana.

 

SUPERPROTEÇÃO

 

Após quatro meses de licença maternidade, Ana voltou a trabalhar e Francisco ficou com a avó no período da tarde. Mas Ana sentia por não estar com ele mais tempo e também por qualquer coisa que interferisse na rotina do filho. O fato de ele não mamar, não comer ou deixar de dormir nos horários definidos geravam incômodo.

 

CONCLUSÃO: PARTO NÃO É DOR, É PARTILHA

 

Após muita troca de experiência, orações e busca por conhecimento, hoje Ana percebe que essa foi uma das fases mais intensas e felizes da vida dela. O apoio da família, a parceria do marido e  as conversas com as mães amigas também foram fundamentais. Ela lembra, ainda, da doula - profissional que dá suporte físico e emocional a mulheres antes, durante e após o parto. Nesse cenário, Ana conclui que:

 

  • O parto complicado interferiu na segurança dela;
  • A transição da Ana mulher para a Ana mãe exigiu tempo de adaptação;
  • É preciso ter consciência de que o cuidado com o filho é um processo lento e contínuo.

 

Para Ana, “é necessário viver e compreender que só o amor e a entrega curam”.

 

A VISÃO DO MARIDO

 

pós-parto da Ana e Márcio

 

O Márcio participou, ativamente, de todas as situações enfrentadas pela Ana. O apoio ocorreu ao longo da gestação, durante e no pós-parto. A entrevista abaixo mostra como foi para ele enfrentar os imprevistos que ocorreram.

 

1 – O seu desafio começou no parto. Como foi enfrentar o risco de perder a sua família?

 

Quando a Ana começou a passar mal, tentei manter a calma porque a ideia era chamar a médica para iniciar o parto natural. Só que eu não sabia da gravidade daquela situação. Pedi para uma prima medir a pressão e quando ela viu que estava muito alta. Fomos para o hospital. A Ana foi para a emergência com a prima, que já iria mesmo acompanhar o parto, e eu fui agir a parte burocrática.

 

2 – Como foi lidar com as adversidades do pós-parto?

 

Como íamos fazer o parto natural, também iniciamos a preparação para o pós-parto durante a gestação. Na época, participamos de encontros com grupos de pais e também tivemos a assistência de uma doula. As conversas nessas reuniões já abordavam o pós-parto e foram essenciais para que eu conseguisse superar esse momento e ter a paciência necessária. As nossas famílias acharam estranho, mas eu sabia do que se tratava. Sabia que depois ia passar, como realmente passou. Na verdade, o meu papel era focar na Ana porque o Francisco precisava dela. Eu não poderia ser mais um crítico, e sim o cara que dava apoio.

 

3 -  Que conselho você dá aos casais que enfrentam situação semelhante?

 

Independentemente se o casal vai optar pelo parto natural, normal ou cesárea – nós, homens e maridos, precisamos estar juntos com a esposa. A parceria tem que existir. Elas ficam nove meses com o bebê na barriga, mas tudo é novidade. E na hora do parto, a presença do pai também é fundamental para dar segurança. Na verdade, os dois estão parindo de um jeito diferente: ela fisicamente e o marido, psicologicamente. Por isso, é importante entender essa nova fase da vida do casal com ajuda mútua.

 

Entenda um pouco mais sobre as mudanças físicas e emocionais que a mulher enfrenta no pós-parto, também conhecido por puerpério.